
A CuidaSM propõe uma mudança na abordagem da saúde mental ao desbancar o modelo tradicional, baseado exclusivamente em diagnósticos psiquiátricos
Edição Scriptum com Estação do Autor e Folha de S.Paulo
Uma nova ferramenta pode transformar a maneira como o Brasil lida com a saúde mental no SUS (Sistema Único de Saúde). A Escala Brasileira de Avaliação das Necessidades de Cuidado em Saúde Mental (CuidaSM), criada por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita, é uma tentativa de ajudar a atenção primária a identificar, entre os milhões de brasileiros que sofrem com problemas como ansiedade e depressão, aqueles que necessitam de atendimento especializado ou que podem receber assistência já nessa instância.
Reportagem de Daniel Alves para a Folha de S.Paulo (assinantes) mostra que o CuidaSM aborda questões que avaliam o impacto do sofrimento no cotidiano e orientam encaminhamento na rede SUS. Um questionário com 17 itens foi desenvolvido ao longo de quatro anos pelo Einstein no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS, que apoia iniciativas de um grupo de hospitais filantrópicos de excelência em colaboração com o Ministério da Saúde.
Para a psiquiatra Joana Mendonça, uma das coordenadoras do desenvolvimento da ferramenta, o grande desafio é organizar as redes de atenção a partir das necessidades reais da população, não do que o sistema tem para oferecer. “A gente precisa saber quais são as pessoas que têm um cuidado que, de fato, só o especialista pode resolver”. Não tem como colocar especialistas, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros especializados em saúde mental, para atender toda necessidade de cuidado em saúde mental, defende a pesquisadora.
A CuidaSM propõe uma mudança na abordagem da saúde mental ao desbancar o modelo tradicional, baseado exclusivamente em diagnósticos psiquiátricos. As questões avaliam dimensões da vida do paciente como relações sociais, funcionalidade, autonomia, impulsividade, agressividade e espiritualidade, aspectos que determinam o real impacto do sofrimento mental na vida cotidiana.
José Eudes Barroso Vieira, diretor de Estratégias e Políticas de Saúde Comunitárias do Ministério da Saúde, ressalta a importância da ferramenta para o sistema público. “A atenção primária à saúde (APS) é a porta de entrada preferencial e a coordenadora do cuidado em saúde no SUS, inclusive com atuação direta na saúde mental, com identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, manejo de casos e articulação com os demais serviços no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial”.
O objetivo é que a aplicação da CuidaSM seja periódica, mantendo o plano de cuidados do paciente atualizado, uma vez que as necessidades individuais podem mudar ao longo do tempo, explica Ana Alice de Sousa, enfermeira e coordenadora do projeto no Einstein.