Pesquisa aponta uma provável causa para o Alzheimer

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SAÚDE

 

Ruth Itzhaki:“Talvez consigamos até vacinar nossos filhos contra este mal”

Em artigo publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado pela BBC Brasil, a pesquisadora Ruth Itzhaki, professora de Neurobiologia Molecular da Universidade de Manchester, no Reino Unido, diz que sua pesquisa mais recente sugere uma forma de tratamento para o Alzheimer, doença que atinge mais de 30 milhões de pessoas em todo o mundo.

Ela lembra que, infelizmente, ainda não há cura para a doença, apenas drogas para aliviar os sintomas. No entanto, diz ter encontrado a evidência mais forte até agora de que o vírus da herpes é uma das causas do Alzheimer, sugerindo que medicamentos antivirais eficazes e seguros podem ser capazes de combater a doença. “Talvez consigamos até vacinar nossos filhos contra esse mal”, imagina.

O vírus relacionado à doença de Alzheimer, o HSV1 (vírus mais comum da herpes simples), é conhecido por causar herpes labial. Ele infecta a maioria das pessoas na infância e, em seguida, permanece adormecido no sistema nervoso periférico (parte do sistema nervoso que não contempla o cérebro e a medula espinhal). Às vezes, em momentos de estresse, o vírus é ativado e, em alguns indivíduos, causa feridas na boca.

Ruth Itzhaki diz que, em 1991 se descobriu que, em muitos idosos, o HSV1 também está presente no cérebro. “E em 1997 mostramos que isso representa um forte fator de risco para Alzheimer quando presente no cérebro de pessoas que têm o gene APOE4”.

Segundo ela, o vírus pode se tornar ativo no cérebro, possivelmente várias vezes, e isso provavelmente causa danos cumulativos. A probabilidade de desenvolver Alzheimer é 12 vezes maior para os portadores do gene APOE4 que possuem o vírus HSV1 no cérebro do que para quem não apresenta nenhum dos dois fatores de risco.

A pesquisadora diz ainda que, junto com outros pesquisadores, descobriu que a infecção por HSV1 das culturas celulares faz com que proteínas anormais beta-amiloides e tau se acumulem. A aglomeração dessas proteínas no cérebro é característica da doença de Alzheimer.

“Acreditamos que o vírus HSV1 é um dos principais fatores que contribuem para o Alzheimer e que ele entra no cérebro dos idosos à medida que o sistema imunológico diminui com a idade. Ele estabelece uma infecção latente (dormente), sendo reativada por eventos como estresse, sistema imunológico baixo e processo inflamatório do cérebro provocado pela infecção de outros micróbios”, explica.

Essa reativação gera dano direto nas células infectadas e inflamação viral. “Sugerimos que reativações recorrentes causem lesões cumulativas, que acabam levando à doença de Alzheimer em pessoas com o gene APOE4”.

Provavelmente, diz Ruth Itzhaki em seu artigo, “em portadores do APOE4, a doença de Alzheimer se desenvolve no cérebro devido a uma maior formação de produtos tóxicos provocada pelo vírus HSV1, ou a uma reparação menor dos danos ocasionados”.

Os dados sugerem que agentes antivirais podem ser usados para tratar a doença de Alzheimer. Os principais agentes antivirais, que são seguros, impedem a formação de novos vírus, limitando assim os danos virais.

Ela diz que, em um estudo anterior, se descobriu que o aciclovir, droga antiviral indicada para o tratamento de herpes, bloqueia a replicação do DNA do vírus HSV1 e reduz os níveis de beta-amiloide e tau gerados pela infecção por HSV1 das culturas celulares. “É importante observar que todos os estudos, incluindo os nossos, mostram apenas uma associação entre o vírus da herpes e o Alzheimer – eles não provam que o vírus é de fato uma causa”.

Provavelmente, completa, a única maneira de provar que um micróbio é a causa de uma doença é mostrando que sua ocorrência é drasticamente reduzida ao atacar o micróbio – seja por meio de um agente antimicrobiano ou vacina específicos. “A prevenção bem-sucedida do Alzheimer pelo uso de agentes anti-herpes específicos foi demonstrada em um estudo populacional de larga escala realizado em Taiwan. Espero que dados de outros países, se disponíveis, gerem resultados semelhantes”, conclui.

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