Politização e desinformação insuflaram ‘Revolta da Vacina’

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Na história da humanidade é comum fatos se repetirem em épocas e situações diferentes. A discussão política envolvendo a aplicação da vacina chinesa contra o coronavírus, hoje, resgata o movimento ocorrido no Brasil, no ano de 1904, que ficou conhecido como a Revolta da Vacina.

A doença a ser combatida era a varíola. A campanha capitaneada pelo então secretário da saúde Oswaldo Cruz sofreu queda de cobertura ao se tornar alvo de opositores. Reportagem de Liz Batista, do Acervo Estadão, mostra o que foi a Revolta da Vacina de 1904 e possíveis paralelos desse notório episódio de saúde pública e a atual politização de uma vacinação obrigatória no país (leia).

Em 1904, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, tendo como combustível questões políticas e a desinformação, ocorreram violentas manifestações contra a vacinação obrigatória e contra o governo central. Trinta mortos, 110 feridos e mais de 1.500 presos e deportados constam nos números oficiais sobre a rebelião.

A revolta, que teve como estopim as discussões sobre a lei que tornou obrigatória a vacinação contra a varíola, carrega uma combinação de fatores que desencadearam num enorme descontentamento popular e tem no seu cerne uma orquestrada campanha de desinformação mobilizada pelos opositores do governo do então presidente da República, Rodrigues Alves, e do médico responsável pela ação de imunização, o então secretário da Saúde Pública, o sanitarista Oswaldo Cruz. Este último, alvo favorito das charges dos opositores.

A campanha contra vacinação levou o caos às ruas do Rio de Janeiro. Não derrubou o presidente Rodrigues Alves, mas foi eficiente em reduzir a cobertura vacinal da população. Entre maio e julho de 1904 o número de pessoas vacinadas mostrava-se numa curva ascendente, com cerca de 8.200 pessoas vacinadas em maio, e 23.021 em julho. Com a discussão sobre a obrigatoriedade da vacina e as disputas políticas derivadas do debate sobre a lei, em agosto o registro caiu para 6.036 vacinados. Em final outubro, dias antes da revolta, o registro era de apenas 1.138.

Se por um lado eram muitas as mentiras veiculadas sobre a vacina, a insatisfação popular com as condições de vida na capital da República eram reais e legítimas. Tanto o projeto urbanístico de Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro e a campanha sanitarista de Oswaldo Cruz, executados com medidas autoritárias e métodos violentos, marginalizaram e empurraram para a periferia as camadas mais pobres da população. E a onda de insatisfação instaurou a desordem nas ruas. A cidade só retornaria à normalidade após a queda da lei da vacinação obrigatória.

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