Reino Unido questiona ameaça à sua democracia

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DEBATE

 

 

 

Mesmo questionada por manter algumas instituições já ultrapassadas em outras nações, a Grã-Bretanha ainda é considerada, em muitos aspectos, como um exemplo para as democracias modernas. Contudo, esta semana, um novo golpe parece ter abalado essa percepção. A manobra do primeiro-ministro Boris Johnson, – que pediu à rainha Elizabeth II um prolongamento do recesso parlamentar até o dia 14 de outubro, dando-lhe tempo para promover, sem debater com o Parlamento, a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), previsto para 31 de outubro –, provocou reações iradas dos britânicos.

Ao mesmo tempo em que um abaixo-assinado contra a medida conseguia mais de 1 milhão de assinaturas em menos de 24 horas, o jornal Financial Times, um dos mais tradicionais veículos da imprensa britânica e representante do pensamento liberal desde 1888, criticava duramente a tentativa em editorial.

Para o jornal, a iniciativa de Johnson é uma tentativa “intolerável” de silenciar o Parlamento até que ele não possa mais impedir uma saída desastrosa do Reino Unido da União Europeia.

“A sede da democracia britânica, há muito admirada em todo o mundo, está sendo impedida de dar sua opinião sobre a decisão mais importante que o país enfrenta em mais de quatro décadas”, prosseguiu a publicação, afirmando ainda que Johnson fala em nome da população britânica como desculpa para agir em interesse próprio e dos conservadores que defendem um Brexit sem acordo. “Se ele está confiante no apoio da população, deveria se dispor a testar isso com os eleitores em uma votação – em vez de fazer uma tentativa arrogante de frustrar a democracia parlamentar que tem sido a base da prosperidade e da estabilidade no Reino Unido.”

O Financial Times, assim como milhares de britânicos que saíram às ruas para protestar contra a iniciativa, afirma ainda em seu editorial que “não há justificativa legal ou administrativa para uma completa interrupção de cinco semanas das atividades do Parlamento (…). Johnson está usando um artifício constitucional para frustrar um Parlamento que ele sabe ter maioria contra sua política preferida”.

Em seguida, o tradicional jornal defende que os parlamentares atuem com firmeza para impedir a manobra e remover Johnson do poder. “É hora de os parlamentares derrubarem seu governo em um voto de desconfiança, abrindo caminho para uma eleição na qual a população possa expressar sua vontade”, defendeu o editorial.

E a publicação conclui: “O governo representativo do Reino Unido é um exercício de democracia deliberativa que envolve discussão, negociação e concessões inevitáveis. Ele atribui aos parlamentares o poder de tomar decisões em nome dos eleitores e permite que eles deliberem sobre questões minuciosas — e, no caso do Brexit, a cisão mais complexa na história do pós-guerra, detalhes importam”.

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