São João Marcos, a cidade que foi inundada

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Bosque de mulungus no Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos

 

No caminho que liga o litoral de Mangaratiba ao município de Rio Claro (RJ), um episódio traumático aos poucos se revela: a destruição da cidade de São João Marcos, demolida para a construção de uma represa nos anos 1940. O grande pórtico na altura do quilômetro 20 da RJ-149, a primeira estrada de rodagem do Brasil, indica o Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos, situado em uma reserva natural formada por 930 mil m² de mata atlântica e um enorme espelho d’água.

As ruínas de um forno e a fundação em pedras de cantaria de uma padaria são os primeiros vestígios daquela que foi uma das cidades mais prósperas do século 19. Alguns metros à frente, onde no passado viajantes lavavam os pés antes de entrar na cidade, a ponte Padre Peres segue como o principal acesso ao local — hoje um grande museu a céu aberto formado pelo conjunto de ruínas, um centro de memória, um bistrô e um anfiteatro, como mostra reportagem de Mariana Costa para Folha de S.Paulo (leia).

São João Marcos foi fundada em 1739 e tornou-se berço da aristocracia rural fluminense. A localização privilegiada, em meio a uma confluência de rios, próxima à capital e com acesso ao litoral, levaria a cidade a viver anos de glória. Com o fim da escravidão e o declínio do ciclo do café, a cidade começou a perder importância.

Pouco antes da demolição, Igreja Matriz precisou ser dinamitada

Entre 1905 e 1907, a concessionária Light, na época uma empresa canadense, arrendou e inundou um distrito rural de São João Marcos para a construção de uma usina. O pedregoso Rio das Lajes viraria um grande lago artificial. Vilarejos e distritos foram submersos e um surto de malária se alastrou pela região, trazendo morte e doença.

Trinta anos depois, um novo sacrifício foi imposto: era preciso elevar o nível de água da represa, inundando o município. Em 1939, na tentativa de proteger o conjunto arquitetônico, o antigo SPHAN, atual Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), fez o tombamento de São João Marcos. Mas em 1940, Getúlio Vargas, com uma canetada, cancelou o tombamento, abrindo caminho para que a Light aumentasse a capacidade da represa.

Prestes a completar dez anos, o parque recebia, em média, 10 mil pessoas ao ano. As atividades culturais foram suspensas por causa da pandemia e passaram a acontecer de forma virtual, e as visitas foram restritas a pequenos grupos, aos sábados.

Enquanto a memória de São João Marcos renasceu com a criação do parque, o distrito de São Sebastião do Arrozal não teve a mesma sorte. Quase uma centena de fazendas — e também os rastros da exploração do trabalho de pessoas escravizadas — jaz a 40 metros de profundidade. Um dos poucos relatos a respeito é de Luiz Ascendino Dantas intitulado “O Holocausto Brasileiro”. As consequências de uma desapropriação que deixou moradores e animais ilhados, e trouxe morte e doença, rendeu ao local, à época, o título de “represa da morte”.

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