Alerta de um especialista: o Brasil precisa ganhar competitividade

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Na reunião do Conselho de Politica Econômica do Espaço Democrático realizada no início de abril, o coordenador Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, fez um alerta: o grande desafio do Brasil, nos próximos anos, será aumentar sua produtividade e buscar competitividade nas relações comerciais internacionais. Esse diagnóstico acaba de ser confirmado pelo maior especialista em estratégia e competitividade do mundo, o professor da Harvard Business School Michael Porter, que também é diretor do ranking de competitividade das nações do Fórum Econômico Mundial.

Em entrevista publicada pela revista Exame, da Editora Abril, Porter afirma que o Brasil e suas empresas só serão realmente fortes quando o governo deixar de representar um papel desastroso para a economia.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista publicada na revista Exame, assinada pela jornalista Cristiane Mano:

“Nunca houve um momento tão favorável para economias emergentes na história como o atual. O crescimento, no entanto, pode mascarar fragilidades capazes de minar a prosperidade desses países nos próximos anos. O alerta é do americano Michael Porter, maior especialista em estratégia e competitividade do mundo.

Professor da Harvard Business School e diretor do ranking de competitividade das nações do Fórum Econômico Mundial, ele condena duramente o papel do governo brasileiro na criação de um ambiente de negócios eficiente.

Diante da crise persistente que abate países ricos, pode-se dizer que a definição de competitividade mudou no mundo atual?

Competitividade é um conceito atemporal e apoia-se em duas condições básicas no caso dos países. Em primeiro lugar, as empresas locais têm de conseguir competir em mercados globais. Ao mesmo tempo, o padrão de vida de seus habitantes tem de melhorar. Sem nenhuma dessas duas condições, o país não é competitivo. E somente o ganho de produtividade permite conciliá-las.

Por que os países ricos perderam competitividade?

Os mercados emergentes cresceram rapidamente e os países ricos não seguiram o mesmo ritmo de progresso. A globalização começou na década de 70 e os países ricos se deram bem no começo porque as nações emergentes eram ineficientes. Ao mesmo tempo em que as nações emergentes melhoraram, os países mais ricos passaram a enfrentar o envelhecimento da população – e o consequente aperto no orçamento, sobretudo nas áreas de saúde e previdência. A combinação dos dois fatores é um fenômeno relativamente novo no cenário mundial.

Em sua opinião, os países emergentes estão aproveitando a oportunidade?

Economias emergentes, como o Brasil e alguns países da Ásia, beneficiaram-se de fatores como a explosão dos recursos naturais. Isso faz parecer que um país é próspero. A verdade é que a prosperidade que se vê muitas vezes não decorre do ganho de produtividade. Os países emergentes têm agora uma grande oportunidade. É mais fácil melhorar quando você é fraco, copiando os líderes. O envelhecimento da população ainda não é um problema crítico. Mas a prosperidade não será automática e linear nos próximos anos. Não sei se a era de ouro vai durar mais três ou dez anos. Desafios vão surgir. Já temos um ajuste de salários. A diferença de salários entre trabalhadores indianos ou chineses e americanos já diminuiu.

O senhor vê uma estratégia por trás do crescimento em países emergentes?

Alguns países melhoraram fundamentos básicos, como educação, saúde e infraestrutura. Abriram seus mercados para investidores estrangeiros e criaram regras mais estáveis. A China, por exemplo, segue uma estratégia clara, mas que não coincide com o interesse de seus cidadãos. Abusa de baixos salários e da intervenção excessiva do governo. Algumas dessas políticas funcionam no curto prazo, mas vão custar caro com o tempo. Esse cenário não vai permitir que a economia chinesa se torne vibrante no futuro.

De que maneira essa postura pode ser um problema no futuro?

Salários baixos são uma fonte temporária de competitividade. Salários baixos não constroem países competitivos. Esses países não deveriam se preocupar se os salários estão se tornando mais altos – eles deveriam deixá-los subir porque isso vai criar prosperidade. A China distorceu elementos da competitividade e criou um jogo de ganha-perde com o resto do mundo. Mas não será capaz de crescer no futuro com esse modelo. Sem proteção de propriedade intelectual, por exemplo, não existe inovação, e isso vai ser um problema.

Quais são os outros fatores que podem atrapalhar o crescimento de países emergentes?

Em países como o Brasil, o papel do governo é, francamente, um desastre. O governo é muito burocrático. Os impostos são complexos e pesados. O Brasil tem muitos recursos, gente inovadora. Mas o peso do setor público atrasa o crescimento do país. O governo conquistou estabilidade macroeconômica, mas em termos microeconômicos não avançou muita coisa. O Brasil terá de se transformar nos próximos 20 anos – ou então ficará para trás. Não é um problema para os próximos dois ou três anos. Mas será um problema daqui a dez ou quinze anos.

Qual é o melhor exemplo de país que tenha superado o excesso de burocracia?

É difícil achar uma referência comparável ao Brasil pelas suas dimensões. A Indonésia livrou-se de problemas ao simplificar o governo. A Colômbia também fez rápido progresso no ambiente de negócios quando o governo passou a atrapalhar menos.

Nos últimos anos, a indústria perdeu peso no PIB brasileiro. É possível um país ter produtividade sem uma indústria forte?

Negócios bem-sucedidos são a base de uma economia próspera. A indústria cria empregos, paga impostos e faz a economia crescer. Governos não podem criar riqueza. Negócios criam riqueza. E a maneira correta de garantir que isso aconteça não é com monopólio ou distorções.

Alguns países, inclusive o Brasil, têm recorrido a barreiras protecionistas para frear a concorrência estrangeira. O que o senhor acha dessa estratégia?

É algo tentador, mas quase nunca funciona. Uma vez que você começa a fazer isso é difícil parar – e, protegidos, os negócios locais não melhoram. Um dos casos raros em que o protecionismo resultou em melhora é o da Coreia do Sul, onde as companhias locais promovem um ambiente competitivo o suficiente para gerar produtividade. No Japão, há evidência de maior sucesso em áreas não protegidas. E o desempenho de setores protegidos foi um fiasco.

A competição global pode se tornar um jogo em que todos ganham?

A competitividade não é necessariamente um jogo de soma zero, em que um país ganha se o outro perde. A convivência sem barreiras pode ser produtiva para todos. Hoje, todo país precisa ter multinacionais – tanto empresas de fora em seu território quanto empresas locais com presença internacional. Se você entende que produtividade é algo que define a competitividade, então você vai querer multinacionais de classe mundial em seu território. Essa é uma razão pela qual o protecionismo é uma ideia morta atualmente.

Ainda estamos distantes de uma recuperação da crise?

Vivemos a mais lenta recuperação de uma crise na história americana. Num levantamento que fizemos na universidade, descobrimos que o declínio da competitividade americana começou no fim dos anos 90. Ainda temos uma massa de empreendedores fenomenal e centros tecnológicos de ponta. É preciso, no entanto, recuperar fundamentos como infraestrutura e educação básica. Há um grande caminho para as empresas americanas no que se refere também ao ganho de produtividade. Uma crise raramente decorre de forças impossíveis de conter. Quase sempre resulta de um conjunto de decisões. É uma questão de fazer as escolhas certas.”

 Leia também – Meirelles: o desafio agora é o aumento da produtividade

 

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