
“Se a Rússia quiser acabar com a guerra, é só retirar suas tropas”, afirmou o cônsul honorário Jorge Rybka
Redação Scriptum
A anexação de territórios da Ucrânia pela Rússia, um dos poucos pontos conhecidos da proposta de acordo de paz que os Estados Unidos vêm negociando com os dois países, foi duramente criticada pelo cônsul honorário da Ucrânia em São Paulo, Jorge Rybka, nesta segunda-feira (1), em palestra no Espaço Democrático, a fundação para estudos e formação política do PSD. “A Rússia não controla completamente nenhum dos territórios que reivindica, como podemos entregar a eles algo que sequer tomaram totalmente?”, questionou. Pela proposta americana em discussão, a Rússia incorporaria uma faixa que corresponde a mais de 20% de todo o território ucraniano e que inclui as economicamente importantes regiões de Donetsk e Luhansk. “Se a Rússia quiser acabar com a guerra, é só retirar suas tropas”, enfatizou. “Porque se a Ucrânia desistir, o país acaba”.
Rybka fez um longo relato histórico sobre a formação da Ucrânia, para defender a soberania do seu povo e do país. “A guerra tem raízes na resistência do presidente Vladimir Putin em reconhecer a existência da Ucrânia como nação soberana”, afirmou ele, que é primeiro vice-presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira e presidente da Sociedade Ucraniano-Brasileira. “A ambição de Putin remonta não ao período soviético, mas ao czarismo, ele quer retomar o que acredita ser historicamente dele”. Mas, como destacou Rybka, a Ucrânia existe desde muito antes de ser dominada pelos impérios russo e soviético.
Para o cônsul, a resistência que a Ucrânia oferece neste momento é a resposta a 350 anos de servidão. “Os ucranianos resolveram dar um basta”, afirmou. Ele apontou que a guerra só terminará quando as tropas russas deixarem todo o território ucraniano. “Só existe um acordo aceitável: aquele que preserve a dignidade, a liberdade e a integridade territorial da Ucrânia; outro tipo de acordo não tem chance”. Ao destacar o impacto humano da guerra e a impossibilidade moral de ceder territórios à Rússia, ele citou o presidente Volodymyr Zelensky. “Ele falou: como vou dizer a uma viúva que seu marido morreu em vão e que, a partir de amanhã, ela será russa? Como vou falar a crianças órfãs que seus pais perderam a vida por nada? Os ucranianos não aceitarão.”

Reunião semanal de colaboradores do Espaço Democrático
Apesar das difíceis negociações, ele diz que ainda confia na intervenção dos parceiros ocidentais: “Acreditamos nos americanos e nos europeus e esperamos que cheguem a um consenso que seja bom para todos.”
Rybka advertiu para o risco de um acordo de paz que não preserve a integridade territorial da Ucrânia. Para ele, uma eventual vitória russa enviará ao mundo a mensagem de que invadir, pilhar e exterminar povos pode ser recompensada. “E nós sabemos que Putin não vai parar por aí”, disse, referindo-se a estudos de centros de pesquisa da Alemanha que projetam um cenário ainda mais expansionista, o de chegar ao Atlântico.
Participaram da reunião semanal do Espaço Democrático, coordenada pelo jornalista Sérgio Rondino, os economistas Lucas Ferraz e Roberto Macedo, os cientistas políticos Rubens Figueiredo e Rogério Schmitt, o sociólogo Tulio Kahn, os gestores públicos Mário Pardini e Januario Montone, o médico sanitarista e ambientalista Eduardo Jorge, o advogado Roberto Ordine e os jornalistas Renata Rondino e Eduardo Mattos.