
O cientista político Rubens Figueiredo: influencers vão em busca do engajamento direto, da emoção, exposição e informalidade
Redação Scriptum
O Brasil vive uma profunda transformação na maneira como diferentes segmentos da sociedade se reconhecem e se relacionam com figuras públicas. As elites tradicionais, que historicamente foram responsáveis por formar a opinião pública, têm perdido cada vez mais relevância para o grupo dos influenciadores digitais. “Intelectuais, políticos e empresários perderam espaço para os criadores de conteúdo, que conquistam o público pela simplicidade e identificação”, apontou o cientista político Rubens Figueiredo nesta segunda-feira (17), em São Paulo, durante palestra na reunião semanal do Espaço Democrático – a fundação para estudos e formação política do PSD.
Figueiredo destacou que o discurso formador de opinião clássico, intelectual, se tornou “antiviral”, incapaz de gerar identificação. Para ele, “enquanto a elite se esconde, busca respeito e tem repulsa ao comportamento vulgar dos influencers, esses vão em busca do engajamento direto, da emoção, exposição e informalidade”.
Ele relatou vários casos de personagens do meio digital, que estabeleceram, segundo define, o status desta nova relevância. “É conhecido o caso de um médico que teve o passado inventado por um amigo com o propósito de atrair a atenção do público feminino: era apresentado como ex-participante do reality show Big Brother Brasil. “Para ter a atenção de alguém, era mostrado com um ex-BBB, mas quando revelava que era médico, o interesse por ele desaparecia”, contou.
Outro exemplo citado por ele foi o da jovem moradora de uma favela que acumulou centenas de milhares de seguidores mostrando unicamente a sua rotina simples. “Isso revela o motivo da força dos criadores de conteúdo: a proximidade e a identificação com as pessoas comuns”, disse. “Enquanto o integrante da elite é etéreo, distante, o influencer é igual: é o vizinho que deu certo e isso não agride quem vê”.
O cientista político lembrou de um episódio recente, que colocou frente a frente esses dois mundos, ocorrido durante uma sessão da CPI das Bets, quando a influenciadora Virgínia Fonseca, ouvida na condição de testemunha, foi tietada pelo senador Cleitinho (Republicanos-MG), que durante o seu tempo de fala pediu a ela que gravasse um vídeo para sua esposa e filha. “Foi simbólico”, apontou Figueiredo. “O formador de opinião tradicional e a nova relevância se encontraram – e quem venceu foi a influenciadora”.

Reunião semanal de colaboradores do Espaço Democrático
Figueiredo acredita que não existe mais opinião na sociedade. Para ele, a troca de pontos de vista, o debate racional e baseado em argumentos, foi substituído pelo que chamou de convicções inegociáveis, alimentadas por emoções e identidades. “Quem pensa diferente não merece ser ouvido; o sujeito não argumenta mais; ele atropela o outro”, afirmou. E destacou que a baixa escolaridade do brasileiro médio e a forte de presença nas redes sociais tornou-se terreno fértil para a ascensão dos influenciadores.
Participaram da reunião semanal do Espaço Democrático, coordenada pelo jornalista Sérgio Rondino, o economista Luiz Alberto Machado, o cientista político Rogério Schmitt, o sociólogo Tulio Kahn, o gestor público Mário Pardini, o médico sanitarista e ambientalista Eduardo Jorge, os advogados Roberto Ordine e Helio Michelini, e os jornalistas Eduardo Mattos e Renata Rondino.