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{ ARTIGO }

Dez medidas para combater a violência nas escolas públicas

Para evitar novos ataques, são necessários o esforço da sociedade e um conjunto de políticas públicas, escreve Alexandre Schneider

 

Alexandre Schneider, pesquisador da FGV/DGPE, pesquisador do Transformative Learning Technologies Lab da Universidade Columbia, em Nova York, pesquisador do Centro de Economia e Política do Setor Público da FGV/SP e ex-secretário municipal de Educação de São Paulo

Edição: Scriptum

 

Aconteceu mais uma vez. No último dia 23, uma segunda-feira, pouco depois das 7h, um estudante entrou armado em seu colégio e matou friamente uma colega e feriu outras três em uma escola estadual de São Paulo. É o segundo caso no Estado e o 16º no País este ano, o dobro do número de casos do ano passado.

A violência nas escolas não é um fato novo no Brasil. O assassinato de estudantes por seus colegas, sim. Combatê-la exige um esforço da sociedade para apoiar escolas, educadores e estudantes e um conjunto de políticas públicas no campo da educação, segurança pública e da proteção social.

A primeira medida que deveria ser adotada seria uma pesquisa sobre a qualidade das dimensões do clima escolar: a infraestrutura da escola, as relações sociais, as regras, sua relação com a família e a comunidade, as relações de trabalho e sentimento de valorização dos profissionais, a existência ou não de instrumentos de gestão participativa. Os resultados dessa pesquisa deveriam ser de conhecimento da comunidade e ser o ponto de partida para intervenções no nível da escola e das redes. A cada ano uma nova avaliação de clima deveria ser realizada e os resultados das medidas, avaliados.

As demais políticas deveriam tratar das relações na escola. Professores e estudantes precisam se sentir seguros, e isso passa necessariamente pelo sentido de pertencimento a uma comunidade que acolhe e cuida dos seus.

Em geral, os estudantes não se sentem confortáveis em falar sobre seus problemas com adultos, sejam eles seus pais ou educadores. Identificar as lideranças entre os estudantes e construir programas em que estes promovam o acolhimento dos colegas que não se sentem seguros em dividir alguns de seus anseios com a equipe escolar é um caminho.

O terceiro ponto se refere aos educadores. Parte da violência simbólica também ocorre na relação professor-aluno. Garantir as condições de trabalho adequadas e formar professores para que consigam dar atenção a todos e identificar mudanças no comportamento de seus estudantes que possam indicar algum desconforto: faltas, silêncio, isolamento, comportamento agressivo e outros.

De nada adianta o professor identificar alguns sinais de que algo ocorre com seus estudantes se não contar com uma rede de apoio. Mais do que um psicólogo, a figura de um orientador pedagógico em cada escola é central. Este profissional pode ser o elo entre a escola, a família, os diversos professores e seus estudantes, e entre estes e uma rede de proteção que se articule em torno da escola, para que os casos mais graves sejam atendidos e acompanhados. Um adolescente dificilmente terá o tirocínio de buscar um atendimento psicológico, mas um profissional que o conheça e receba os relatos dos adultos que interagem com ele na escola poderá sugerir a ele e seus responsáveis o atendimento e acompanhá-lo.

A criação de uma rede de proteção social que una os conselhos tutelares, os centros de atendimento da assistência social, de saúde e as equipes de saúde mental é a quinta, e talvez uma das mais importantes medidas. Muitas vezes a escola identifica problemas relacionados aos estudantes e suas famílias, mas não consegue endereçá-los ou ter certeza de que os responsáveis pelos estudantes o fizeram. As escolas podem ser a referência dessa rede e assim ser mais um elo de proteção dos estudantes.

A escola, como qualquer espaço de convívio, precisa de regras. Todas as escolas têm seu regimento, mas ele não pode ser um instrumento burocrático, do qual “os adultos” lançam mão após um evento de indisciplina. Seria importante que estas normas de convivência fossem enxutas, discutidas com os estudantes e não só apresentadas a eles. E que a cada início de ano letivo os estudantes e seus pais se comprometessem com estas formalmente. Crianças e adolescentes têm claro o sentido de justiça. Mas não aceitam conhecer as regras após as terem violado, ou que estas sejam unidirecionais e não partilhadas.

A sétima sugestão está voltada ao ensino das regras de convivência em redes digitais. A escola precisa tratar disso com os estudantes, promovendo rodas de conversa e ensinando os mesmos a “ler” as informações a que são expostos na rede.

Informar os pais sobre como acompanhar o uso das redes por seus filhos, que filtros podem ser utilizados nos dispositivos e o tempo adequado de consumo é fundamental. Assim como sugerir a eles como podem acompanhar o que seus filhos consomem e disseminam nas redes. Sinais de isolamento social, apreço por teorias conspiratórias, preconceito e culto à violência são gatilhos importantes. Deve-se informar ainda como conversar com seus filhos quando identificam esses sinais e onde procurar ajuda profissional.

É preciso um trabalho de inteligência policial em relação às redes de ódio que habitam a internet e capturam muitos daqueles que não encontram na escola ou em casa um sentido de pertencimento. Para além de grupos de trabalho —em geral anunciados em época de crise— é fundamental que a Polícia Federal coordene junto às polícias civis estaduais iniciativas estruturadas de troca de informações e de investigação para prevenir ataques futuros, a captura de adolescentes e a disseminação do ódio.

A décima e última proposta serve aos gestores públicos, governadores e prefeitos: ouçam as escolas. É na escola que os problemas que geram a violência a que estamos assistindo se materializam. São elas que podem nos ajudar a compreender melhor o que acontece e quais medidas devem ser tomadas. E é a comunidade escolar que pode nos dizer com precisão o apoio que precisa para que vençamos o jogo.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 23 de outubro de 2023.

 

 

Os artigos publicados com assinatura são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do PSD e da Fundação Espaço Democrático. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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