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{ ARTIGO }

Sofrendo feliz da vida, livro de Rubens Figueiredo

Economista Roberto Macedo escreve sobre a nova obra do sociólogo que é integrante do Espaço Democrático

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

Edição Scriptum

 

O livro tem como subtítulo Alegria e angústia de ser brasileiro e foi editado em São Paulo, pela Editora MM. O autor é um conhecido cientista político e o texto parte da seguinte ideia: o Brasil está bem posicionado nos rankings internacionais que medem a felicidade dos povos, embora nossos indicadores econômico, sociais e de qualidade de vida sejam muito ruins.

Ocupamos o quinto lugar no Global Happiness 2023 (entre 32 países) e 49 no World Happiness Report 2023 (entre 146 países). O Global Happiness é uma pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Ipsos, um dos mais importantes  do mundo. E o World Happiness Report é um estudo coordenado por instituições de peso, como a University de Oxford e a London School of Economics. A pesquisa foi também do Gallup.

Mas, argumenta Rubens, o Brasil é cheio de problemas. É um país que tem o décimo PIB do planeta, mas nos classificamos na posição 87 no Indice de Desenvolvimento Humano (IDH), 101 em saneamento básico, 104 em honestidade, 105 em mortalidade infantil. Somos também um dos oito países com a maior desigualdade de renda e o mais violento (número de homicídios) entre os países do mundo.

Existe uma abrangente literatura sobre o bem-estar das sociedades. Um dos estudos seminais que aborda o tema é o livro The quality of American life: perceptions, evaluations, and satisfactions, de Angus CampbellPhilip Converse e Williard Rodgers (publicado pela Russell Sage Foundation em1976, com 600 páginas). Cada vez tem mais gente querendo saber se somos ou não felizes.

O brasileiro tem motivos para ser feliz? Segundo Rubens, o brasileiro é um povo nascido de uma miscigenação única. Somos uma mistura de índios (várias tribos), portugueses e africanos que já vieram miscigenados, com influência de outras culturas. Nos consideramos felizes.

Temos uma relação umbilical com aquilo que nos traz alegria: música e futebol, por exemplo. Enquanto a música negra americana é melancólica – os blues, por exemplo –, somos animação pura. Somos samba e “escola de samba”. Procuramos o ritmo que traz vontade de ficar junto e balançar o corpo.  O brasileiro é particularmente afetivo, solidário e acolhedor. Está provado que gostar de gente traz felicidade. E também somos considerados espontâneos e sensuais, características que não combinam com tristeza.

Um capítulo particularmente interessante do  livro é o que aponta que o Brasil não se leva muito a sério, somos engraçados e zombamos de nós mesmos. Figueiredo cita frases de alguns grandes intelectuais para ilustrar a tese. Millôr Fernandes dizia que “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. Luis Fernando Veríssimo, que “no Brasil o fundo do poço é só uma etapa”. Roberto Campos, que “o Brasil nunca perde uma oportunidade de perder uma oportunidade”.

Figueiredo cita um estudo acadêmico sobre as piadas que saem na internet sobre o Brasil. Impossível ficar impassível. Morremos de rir das anedotas que nos esculhambam. Particularmente engraçada é a de Deus criando o mundo e dizendo que o Brasil seria repleto de riquezas e belezas, mas vejam o povinho que iria colocar lá.

O autor também discorre sobre nossa sociedade ranzinza, principalmente o segmento da classe média. Houve um estreitamento do bom humor – e isso não favorece o império da felicidade. Grupos identitários se digladiam e temos que tomar cuidado para emitir opiniões. Tudo é muito nebuloso e arriscado. Uma piada no lugar errado pode significar o fim da linha para o emissor descuidado.

Na política, reina a desarmonia. Ela se transformou da busca do consenso na procura daquilo que pode nos fazer odiar o outro. Temas polêmicos são hegemônicos nas redes sociais, e a sociedade se alimenta disso.

Entretanto, o brasileiro é feliz. Temos uma paixão pela vida, gostamos de gente, somos muito desiguais, mas nos igualamos na força das famílias, na alegria, na confraternização, na dificuldade. E, principalmente, na esperança. Nem todo otimismo é ignorante. Figueiredo relata a impressão de alguns estrangeiros – um alemão e uma russa entre eles. Viveram aqui e mudaram seu jeito de ser contagiados pela nossa leveza de levar a vida, apesar das favelas, da pobreza e dos 7 a 1 contra a Alemanha na Copa de 2014, realizada no Brasil.

De minha parte, confesso que não vi pesquisas sobre o que é felicidade abrangendo vários segmentos sociais. Fiz uma pesquisa conversando com uma pessoa de baixa renda, perguntei se era feliz e me respondeu que sim. Avancei pedindo que me dissesse o quê o fazia feliz e respondeu: tenho emprego, salário, uma pequena casa comprada na periferia, estou criando dois filhos que estudam em escola pública, gosto de televisão, de futebol, das músicas brasileiras e por aí afora. Mas evidentemente seria preciso uma amostra adequada e pessoas de diferentes status socioeconômicos. Se o leitor souber de alguma pesquisa abrangente nessa linha, favor me informar no e-mail roberto@macedo.com.

 

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 20 de fevereiro de 2025.

 

Os artigos publicados com assinatura são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do PSD e da Fundação Espaço Democrático. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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